Número 4 - novembro a dezembro de 1999 - Circulação Trimestral

Entrevista do mês

Sergio Candio – Médico especialista em Pediatria, Administração em Saúde e Medicina do Trabalho; formado em Administração e Planejamento de Sistemas de Saúde. Foi gerente do Sistema de Saúde da Villares e atualmente é gerente da Divisão de Programas de Saúde da Fundação CESP.

RGQVT: Como você conceituaria QVT?

SC: Qualidade de vida é uma terminologia bastante ampla. Além disso, é uma questão subjetiva. São situações pessoais que propiciam bem-estar, segurança, momentos de felicidade, enfrentamento de desafios, autonomia e reflexão. Paixão é qualidade de vida! Dedicação, comprometimento, amor, envolvimento com aquilo que se faz. Sem paixão a vida perde em qualidade.

Se nos utilizarmos desta visão mais ampla para elaboramos o conceito de QVT, podemos dizer que QVT é a possibilidade de ter desafios no ambiente de trabalho e estar adequadamente capacitado para enfrentá-los, desenvolver autonomia e possibilidade de participar das decisões, trabalhar num ambiente onde predomine o bom humor e ter bom relacionamento interpessoal com os colegas. E, é claro, não podemos nos esquecer que QVT também é trabalhar num ambiente saudável, com boa iluminação, temperatura agradável, ventilação e mobiliário adequado.

No chão de fábrica, as lideranças estimulam muito os trabalhadores. A relação das chefias com seus subordinados pode ser um grande fator de QVT. Chefias motivadoras, que dêem voz aos trabalhadores e sejam capazes de escutá-los desenvolvem um ambiente de trabalho com qualidade. Além, é claro, da melhoria física das condições ambientais.

Se pudermos destacar algumas palavras chaves relacionadas a QVT, estas são: relacionamento interpessoal, bom humor, participação e compartilhamento efetivo, autonomia e responsabilidade.

RGQVT: Você trabalha há muitos anos em promoção de saúde no ambiente organizacional. Na sua opinião, o que os programas de saúde necessariamente têm que abordar?

SC: Já citamos uma série de fatores na resposta anterior. Para complementarmos, podemos enfatizar aqui a importância das condições físicas do ambiente de trabalho: layout, processo e organização do trabalho, ferramentas e equipamentos adequados utilizados na confecção do trabalho, treinamento aos trabalhadores e medidas de proteção contra acidentes e doenças ocupacionais, sejam elas coletivas ou individuais.


RGQVT: Que estratégias você apontaria para iniciar e manter o processo de mudança do estilo de vida dos funcionários rumo a uma situação mais saudável?

SC: Antes de implementarmos qualquer estratégia, devemos fazer o diagnóstico da situação, pois se começarmos por uma estratégia que não representa a real necessidade daquele grupo, o programa não funcionará.

Estilo de vida está ligado ao comportamento. Nenhum programa de QVT muda o comportamento das pessoas. Estes dão subsídios para que as pessoas possam refletir e decidam-se pela mudança. Trabalhar com QVT é desenvolver a reflexão nas pessoas que as mudanças dependem delas próprias.

Quem conduz o programa de QVT deve conhecer bem as conseqüências aversivas da manutenção de determinados comportamentos ou situações para agir sobre eles. Por exemplo: diagnosticamos uma pequena perda auditiva em alta freqüência num trabalhador. No momento, a perda ainda não afetou sua audição. Porém temos conhecimento que se não introduzirmos medidas preventivas imediatamente, esta perda poderá aumentar e prejudicar a audição deste trabalhador no futuro.

Esta é a importância do diagnóstico: temos que partir das situações emergentes naquela população, analisando a freqüência da ocorrência, sua gravidade e as conseqüências futuras. Só desta forma poderemos priorizar por onde começar. Além disso, temos que conhecer qual é a nossa população: sexo, idade, procedência, etnia. Precisamos criar mecanismos que atraiam seu interesse.

Um programa de QVT para ser realmente eficaz e manter o interesse da população pode (e deve) ter um modelo, uma espinha dorsal. Porém, ele deve ser suficientemente flexível e capaz de moldar-se àquela população que deseja atingir: devemos saber ouvir
quais são suas verdadeiras necessidades e interesses, casando-os com os interesses e necessidades da empresa.

 

Mensagem de ano novo

"...para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem que merecê-lo, tem que fazê-lo novo. Eu sei que não é fácil. Mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre."

Carlos Drummond de Andrade

 

Reuniões da rede

Em setembro o psicólogo e consultor de treinamento João Januário Martins apresentou o tema O Ser Integrado – A saúde bio-psico-social do trabalhador, propiciando interessantes discussões em grupo. A seguir, trechos da apresentação e contribuição dos grupos:

“Numerosos são os operários e empregados submetidos à Organização Científica do Trabalho (Taylorismo) que mantêm ativamente, fora do trabalho e durante os dias de folga, um programa onde atividades e repouso são verdadeiramente comandados pelo cronômetro. Quando chega o final de semana ou as férias, apresenta dificuldades em conviver com a família, com o lazer e com a vida social, mostra-se irritadiço e alguns chegam a fazer manifestações depressivas.  Dejours definiu este comportamento como “contaminação” do tempo fora do trabalho, aonde está presente a preocupação ininterrupta do tempo permitido a cada gesto, uma espécie de vigilância permanente para não deixar apagar o condicionamento mental ao comportamento produtivo.

De Masi, sociólogo italiano, afirma que “a sociedade industrial concentrava todo o divertimento na infância, todo o estudo na juventude, todo o trabalho na maturidade e todo o repouso na velhice. Hoje, ao contrário, é possível conjugar lazer, estudo, trabalho e ócio em cada momento da vida”. Nas palavras de De Masi, o trabalho na sociedade pós–industrial, do próximo século, será orientado pela criatividade. Síntese de fantasia e concretização, por sua vez, fantasia que  é a síntese do inconsciente e da esfera emotiva. Criatividade que advém da combinação do jogo da amizade, do amor, do lazer e da introspeção”.

Discussões em grupo:

Grupo: Crias do Ócio - Tema: Organização do Trabalho

Este grupo discutiu a flexibilidade de horários; a  abertura de canais de comunicação e a organização do ambiente nas empresas; o ócio criativo e o prazer NO/DO trabalho gerando uma vida mais saudável

Grupo: Ser Integral - Tema: Depressão e outras doenças

A discussão deste grupo foi sobre o prazer e bem estar da pessoa dependendo de fatores psicológicos, físicos,  emocionais e sociais.

Grupo: “Consciência” - Tema: Trabalho alienante

Discutiu-se o lado patológico do trabalho e a  alienação; a repressão de emoções e fadiga; a dissociação intelecto/ motricidade e a tendência a reprimir pensamentos e emoções durante o trabalho e a harmonia pessoal de assumir responsabilidades por seu próprio bem-estar.

Grupo: “De médico e louco…” - Tema: Presenteísmo e Compulsão

A discussão deu-se acerca da Síndrome da informação, prevalecendo o modelo antigo de economia e a relutância em assumir o novo modelo. As conseqüências apontadas foram: a contaminação do tempo de lazer e o comprometimento das áreas sociais, gerando ansiedade,  doenças físicas e psicológicas.

Grupo: “Dá para tomar uma kaiser” Tema: Sofrimento patogênico

As causas do sofrimento patogênico apontadas por este grupo foram: a remoção da criatividade e a imposição do sistema que aliena o indivíduo, gerando individualização,  solidão, desequilíbrio social e mental e depressão

Grupo: “Evolução” – Tema: Ressonância simbólica

Este grupo discutiu a repressão, o sofrimento e a inatividade e seus contrapontos: espontaneidade, criatividade, saúde e qualidade de vida.

 

Agende-se

07 de dezembro – IV Prêmio Nacional de Qualidade de Vida (Clube Transatlântico).
30 de junho de 2000 – GQVT de frente para o Brasil.

 

Dicas de Consulta

Qualidade de Vida, Saúde Mental e Psicologia Social – Estudos Contemporâneos II – Casa do Psicólogo.

Indicadores empresariais de Qualidade de Vida no Trabalho – Ana Cristina Limongi França.

Livrarias – Site contendo endereços de diversas livrarias e bibliotecas Brasileiras e estrangeiras. – Vale a pena ver:
www.usp.br/sibi/livrarias.html

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profª. Ana Cristina Limongi França (climongi@usp.br), Alessandro Souza Lopes (ales@usp.br),
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